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“Câncer do Brasil”: declarações contra a Bahia e o preconceito regional

Arte/Blog do Jeferson

O discurso contra baianos e nordestinos voltou a circular nas redes sociais após o primeiro turno das eleições de 2026. O caso mais recente envolve o economista e comentarista Rodrigo Constantino, que em vídeo publicado no dia 5 de outubro chamou a Bahia de “câncer do Brasil” e Salvador de “um lixo”, além de afirmar que os baianos seriam “uma vergonha para o Brasil” e que “ninguém quer trabalhar”.

Segundo o próprio relato no vídeo, a conclusão teria vindo após uma viagem ao interior da Bahia para uma feira literária, onde teria visto, numa segunda-feira às 11h30, pessoas em bares com violão e cerveja. Em outra publicação no X, escreveu: “O Brasil precisa de mais Paraná e menos Bahia, de mais Santa Catarina e menos Ceará”.

A Polícia Civil da Bahia instaurou nesta terça-feira (6) um procedimento investigativo para apurar possível crime de xenofobia e discriminação por procedência. O Ministério Público da Bahia também anunciou a criação de uma força-tarefa com Caocrim, Caodh, Nucciber e Promotoria de Direitos Humanos para apurar ataques do gênero após o pleito.

O episódio, no entanto, não é isolado. Ele repete um padrão registrado nas últimas cinco eleições presidenciais.

O histórico

2010 – O caso Mayara Petruso: Logo após o segundo turno que elegeu Dilma Rousseff, a estudante de Direito Mayara Petruso postou no Twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado” e “Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país”. O caso se tornou o primeiro de grande repercussão nacional sobre xenofobia digital, resultou em demissão do estágio e ação na Justiça por incitação ao crime.

2014 e 2018 – Aumento nas redes: Nas duas eleições seguintes, denúncias de xenofobia voltaram a crescer sempre no dia seguinte ao primeiro turno, com o Nordeste sendo associado a atraso e a programas sociais. Em comunidades do Orkut, como “Odeio Nordestinos”, o Ministério Público já investigava conteúdo semelhante antes mesmo do Twitter.

2022 – Barreiras e o boom de denúncias: Em 2022, uma advogada de Barreiras, no oeste da Bahia, gravou vídeo dizendo que a cidade era “cheia de muriçoca e cheia de petista” e que “o Nordeste tem que se lascar. A Bahia também tem que se lascar”. A Defensoria Pública da Bahia entrou com ação por dano moral coletivo, citando a Lei 7.716/89, que prevê reclusão de 1 a 3 anos para discriminação por procedência nacional, podendo chegar a 5 anos quando cometido por meio de comunicação social.

Naquele mesmo ano, a Safernet Brasil registrou 348 denúncias de xenofobia em um único dia – o dia após o primeiro turno. Em um levantamento, o InternetLab apontou que 19,4% das publicações que mencionavam o Nordeste no dia seguinte à eleição continham ataques ou ofensas.

Comparado ao primeiro semestre de 2021, o primeiro semestre de 2022 teve aumento de 520,6% nas denúncias de xenofobia – de 358 para 2.222 registros.

2023 – Caso das vinícolas no RS: Em fevereiro de 2023, 207 trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão em vinícolas do Rio Grande do Sul – a maioria negros e baianos – foram alvo de declaração do vereador de Caxias do Sul Sandro Fantinel, que pediu que empresas gaúchas não contratassem mais baianos. O caso foi repudiado no Senado como “xenofobia típica”.

2026 – O retorno do termo “câncer”: O termo usado por Constantino repete a mesma lógica de desqualificação regional, agora usando o resultado eleitoral da Bahia – que deu mais de 66% dos votos a Lula no estado e reelegeu Jerônimo Rodrigues ao governo – como justificativa.

O que diz a lei

Xenofobia por procedência nacional é crime previsto na Lei 7.716/1989. A pena é de 1 a 3 anos de reclusão e multa, e pode aumentar quando o crime é cometido nas redes sociais ou meios de comunicação. O MP-BA tem tratado os casos como crimes de ódio passíveis de investigação cibernética.

A cada eleição, o roteiro se repete: apuração dos votos, destaque para a votação do Nordeste, e em seguida, uma onda de ataques. O que muda é a plataforma e o alcance.